Assunto: NEGROS MORREM PORQUE BRILHAM DEMAIS
Assisti ao filme sobre a vida e obra de Wilson Simonal. Um resgate necessário sobre dúvidas em relação ao seu talento e á sua vida pessoal. Não era informante do DOPS. Não era delator de colegas artistas.
Um bólido no mundo artístico que, segundo Mário Prata, acusado injustamente, não foi anistiado nem pela esquerda nem pela direita.
Depois do filme, confesso que senti um desconforto negativo com muitos artistas da década de setenta que aprendi a ouvi e formar parte de minha opinião sobre o Brasil.
Como eles conseguiram ocultar de mim e de minha geração o pilantra que desafiava a inteligência: Wilson Simonal! Observo que por muito menos Caetano Veloso, Jaguar e Roberto Carlos fizeram coisas que poderiam ser condenadas no passado e vivem felizes. Jaguar, inclusive conseguiu a proeza de confessar que poderia ser ele e não Simonal que poderia ter morrido pelo que fez, falou e não falou.
Michel Jackson Morreu. Uma trajetória de brilho e queda. Sucesso de mídia, palco e venda – conseguiu chegar a extraordinária cifra de 750 milhões de discos vendidos – insuperável. Sua vida tornou-se símbolo de desejo, renúncia e podridão. Muitos o negaram. Foi acusado de pedofilia em 1993. 12 anos depois foi inocentado de todas as acusações. Outros tantos admitiram que pudesse ser tudo verdade e a sua miséria veio rápida. Morreu com a pecha de que poderia ter feito tudo diferente. Como Simonal, parece que não fez a coisa certa.
A anistia post-mortem do Almirante Negro, João Cândido, líder da Revolta da Chibata em 1910, só lhe foi concedida 97 anos após sua morte. Isso tudo após uma intensa luta para que o Almirante, que fora internado no hospital psiquiátrico como louco pudesse ser reparado. O projeto de lei de autoria da Senadora Martina Silva é de 2002 e foi sancionado pelo Presidente Lula em 2008. Os anistiados da ditadura militar e seus familiares já recebem suas indenizações.
Já os familiares de João não puderam receber tal recurso. O artigo que o garantia foi vetado. Simonal 17 anos depois recebeu seu indulto: uma carta que o isentaria de envolvimento com órgãos de inteligência e de repressão.
Preto não pode errar. Se for bem comportado, pode entrar no rol dos que podem ser aceitos como algo domesticado. Se não se comporta bem, de algum modo, morre. Todos elaboraram textos e mensagens sobre sua condição de negros num período que muitos líderes ficaram calados - respectivamente, a critica de Michel contra a gravadora que explorava afro-americanos, a música que Simonal fez para o filho falando da condição de ser negro e o manifesto de João em favor dos amotinados - Os três não conseguiram deixar de serem pretos, apesar de muitos rotularem de estarem contribuindo com o mundo branco e rico, esquecê-los e agora chorarem arrependidos a covardia de nada terem feitos quando deveriam fazê-lo. De algum modo a inveja mórbida da alegria exorbitante do negro paira em nós como um simulacro de um mundo que condena o destino do outro pela cor de sua pele e origem. Mataram João, mataram Simonal, mataram Michel e o estigma continua com os nossos deuses e deusas morrendo para serem reconhecidos depois do tempo.
Sérgio São Bernardo
Instituto Pedra de Raio - Justiça Cidadã
www.pedraderaio.org.br
sergiosaobernardo.blogspot.com
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